📚 Historical Archive Notice
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Seita da Roupa resiste em Portugal
O lder da associao Humana People To People voltou aos tribunais dimarqueses esta semana, acusado de fraude e abuso de confiana. Mas em Portugal a organizao continua a recolher grandes quantidades de roupa. Conhea os relatos incrveis de quem trabalhou nesta associao dita humanitria
Texto | andr barbosa
Quando, em 1998, Joo (nome fictcio) respondeu a um anncio que pedia funcionrios para um armazm no Montijo, estava longe de imaginar o calvrio que iria passar ao servio da associao Humana People To People. Nos dois anos seguintes, foi alvo de uma lavagem ao crebro, passou fome e viu-se obrigado a fugir de uma escola na Dinamarca, propriedade desta organizao alegadamente humanitria. O seu lder, Morgens Amdi Pedersen, um dinamarqus acusado de uma fraude avaliada em 25 milhes de dlares e abuso de confiana, voltou esta semana aos tribunais do seu pas.
Em Portugal, onde se instalou h vrios anos, a Humana opera atravs de contentores onde se pode depositar roupa usada, recrutamento de voluntrios para pases africanos e de uma loja localizada na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, onde so vendidas as peas de vesturio em segunda mo. Estas so seleccionadas num armazm instalado a poucos quilmetros do Montijo.
Quando l cheguei, vi roupa at ao tecto, recorda Joo. Pouco depois, comeou a desconfiar dos critrios na escolha das peas. A boa ia para um saco preto, a de menor qualidade era prensada, formando um fardo, e tudo o que era ls ia para o lixo, recorda ao T&Q o ex-funcionrio da associao internacional.
Proibida de actuar em Frana em meados da dcada de 90 e actualmente sob a mira da Justia de vrios pases europeus, a Humana encontrou na passividade e generosidade dos portugueses uma galinha dos ovos de ouro. Eles estavam muito satisfeitos com os resultados. Ficavam surpreendidos com o facto de os portugueses colocarem roupa de boa qualidade nos contentores, relembra Joo.
Apesar de uma funcionria da loja da Humana ter garantido ao T&Q que qualquer oferta, desde brinquedos a livros, seria bem-vinda, Joo garante que, alm destes, garrafas de azeite e leo, leite em p e acar seguiam directamente para o aterro de Palmela.
Lavagem cerebral e fome
Pier Albinus, o dinamarqus lder da organizao em Portugal, justificou a Joo o desprezo por aqueles artigos. Em frica, brinquedos e livros no se vendem, s se do. Eles s se interessavam por coisas que se pudessem vender, revela o ex-funcionrio, que tambm soube o rumo que as roupas em bom estado tomavam: Iam para Espanha, para serem vendidas nas tiendas de roupa em segunda mo. A restante seguia para frica, para ser tambm vendida, continua. Mais uma vez, Pier respondia com um argumento dbio: De onde pensas que vem o teu ordenado?.
Apesar de estranhar a estratgia da associao, Joo assume que, na altura, j sofria uma contnua lavagem cerebral. Queria conduzir-me ao topo. Comearam a destacar o meu desempenho, puseram-me a assinar papelada, a receber encomendas e telefonemas. At cheguei a ir a Espanha entregar mercadoria s tiendas, conta.
A dedicao valeu-lhe o passaporte para uma escola na Dinamarca, propriedade da TVIND, a casa-me da Humana, onde iria receber preparao para o trabalho de voluntariado em Moambique. Diziam-me que teria mdico de graa, que iria aprender ingls e primeiros socorros, recorda.
Mas, algumas semanas depois de ter aterrado na Dinamarca, a rotina em nada se assemelhava de um estabelecimento de ensino. No havia professores. Questionei a directora e esta respondeu-me que professores somos todos ns e ns somos os nossos prprios professores, diz, ainda aturdido com a explicao.
Quanto aos prometidos cuidados mdicos, estes tambm no existiam. Entretanto, chegou outro portugus que ficou doente ao fim de trs dias. A directora disse-me que, se quisesse um mdico, teria de pagar. Fui eu quem tratou dele, com chs, continua. Comida tambm no abundava na escola. Passei muita fome... Se tomssemos o pequeno-almoo, s jantvamos. S havia duas refeies por dia, explica.
A fuga
Durante os cerca de dois meses que passou na Dinamarca, Joo foi obrigado a pedir dinheiro de porta em porta e a distribuir panfletos em Londres. Disseram-me que era tudo pago, mas na realidade apenas as viagens o eram. Deram-nos uma libra (cerca de 1,5 euros) por dia a cada um para vivermos uma semana em Inglaterra. Tinha de passar dois dias sem comer para poder comprar um hambrguer, denuncia o jovem.
O peditrio na Dinamarca raramente dava frutos, pois os habitantes locais conheciam os negcios obscuros da associao. Um dia, um grupo de chinesas apareceu a chorar. Diziam que lhes fechavam a porta e avisavam que a associao roubava. Pediam-lhes para se irem embora, para fazerem alguma coisa pelo seu pas. E tambm soube de casos de rapazes que acabaram por se prostituir para arranjar dinheiro para comer, diz.
Estas histrias alimentavam-lhe a vontade de fugir, mas Joo sentia-se controlado. Os e-mails eram violados e s podamos fazer chamadas para casa. Mas eu mantive contacto com um amigo, que investigou a associao e pediu-me para ir embora o mais rapidamente possvel. Com a ajuda de outra portuguesa, Joo escapou numa noite. Foi conduzido ao comboio e da seguiu para o aeroporto de Copenhaga. S tinha 40 contos e o bilhete custava 70. Mas uma funcionria do aeroporto, que falava espanhol, disse-me conhecer casos semelhantes e ajudou-me a embarcar, atravs de uma desistncia, recorda. Quando entrei num avio da TAP, em Amesterdo, at chorei. Passei tanta fome que a comida de avio nunca me soube to bem, sorri.
Chegado a Portugal, Joo refugiou-se no Algarve, com receio de perseguies. Dois meses depois, infiltrou-se novamente na Humana. Para tentar obter dados, para abrir um processo, o que nunca viria a acontecer. O Pier recebeu-me bem, com receio que denunciasse o que se passou, remata.
Lucro todo_para eles
O jornalista britnico Michael Durham investiga h anos os negcios da Humana. Criou um site, TVIND Alert, onde recolhe denncias de ex-funcionrios da associao, material publicado e documentos oficiais.
A situao portuguesa -lhe familiar: entre ns que a organizao catalogada por uma associao espanhola como uma seita sem religio, que apenas visa o lucro est mais activa. Em Espanha, na Sucia, na Blgica e no Reino Unido, entre outros pases, a Humana tem sido perseguida, acusada de fraude e lavagem de dinheiro. No entanto, sempre que se sente ameaada, muda de nome. Ao todo, j foram registadas mais de 40 designaes diferentes, embora todas tenham origem na TVIND.
Em conversa com o T&Q, o reprter revela a estratgia da organizao, cujo objectivo obter dinheiro para o Tesouro dos Professores, o grupo de lderes da TVIND. Eles vendem a roupa para as vrias companhias off-shore da prpria organizao. Assim, possvel obter um lucro no declarado e o dinheiro vai parar a uma conta off-shore, possivelmente nas ilhas Caimo, onde j foi detectada uma das vrias contas, desvenda.
O lucro da roupa vendida em frica, incluindo Angola e Moambique a preos de tal forma competitivos que arruinam toda a indstria txtil local , igualmente encaminhada para a conta off-shore dos lderes. Uma televiso holandesa descobriu um memorando de um dos lderes explicando a outro membro como enviar milhes de libras para Angola, coloc-los numa conta de l e depois reenvi-los secretamente para a Dinamarca, acrescenta Durham ao T&Q.
No site da Humana People To People so relatados os vrios empreendimentos de beneficncia levados a cabo em pases subdesenvolvidos. Para o jornalista, estes so realizados atravs de um processo de duplo financiamento. A maior parte dos projectos que eles garantem fazer so pagos por outras fontes, como embaixadas e grandes companhias. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Zmbia.
Em Portugal, uma reportagem da RTP transmitida h dois anos conseguiu provocar um rombo significativo nos negcios da Humana, mas no o suficiente para obrigar a organizao a uma operao de cosmtica, pelo que os contentores de roupa continuam espalhados um pouco por todo o Pas. O T&Q tentou confrontar a Humana com estas acusaes mas, at data de fecho desta edio, no obteve qualquer resposta.
No pagam Segurana Social
Odete (nome fictcio) tambm trabalhou no armazm da Humana onde, de 2000 a 2002, seleccionou, prensou e empilhou roupa. Conhece o caso de Joo: Esse coitado fartou-se de sofrer, at fome passou, ressalva.
O seu diferente. Acusada de roubar mais do que o nmero limitado de trs peas de roupa levara um par de meias, que contava como duas peas , Odete tentou processar a Humana, mas no conseguiu mais do que um acordo entre advogados. Deram-me 600 contos para me calar, conta. Ali, nem as garrafas de azeite, nem o acar nos deixavam levar, nem davam a ningum, ia tudo para o lixo, lamenta.
Quando ficou desempregada, quis inscrever-se no Centro de Emprego para receber o subsdio. Foi ento que descobriu que a Humana no descontava para a Segurana Social, embora tal fosse indicado nos recibos de remunerao. No mo deram, porque tinha meses e meses sem descontar e eles passaram-me uma carta sem os motivos para estar desempregada. Por estes motivos, Odete no tem dvidas: Aquilo tudo menos uma associao humanitria!, afirma, indignada.
O T&Q contactou igualmente a Cmara Municipal do Montijo, que afirmou desconhecer qualquer protocolo de cooperao com a Humana e no dispor de qualquer informao sobre a mesma.
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